"— Olha aqui! — falei. — Escuta a minha ideia. Que tal a gente dar o fora? Escuta só minha ideia. Conheço um camarada que mora lá em Greenwich Village que pode me emprestar o carro dele por uns quinze dias. Ele era meu colega na escola, até hoje me deve dez dólares. Podíamos fazer o seguinte: podíamos sair em direção a Massachusetts e Vermont, amanhã de manhã, e por aí tudo, sabe. É bonito pra burro por lá. É mesmo.
Quanto mais pensava no troço, mais excitado ficava, e cheguei a me esticar e pegar a droga da mão de Sally. Que idiota que eu era.
— Fora de brincadeira — continuei. — Tenho uns 180 dólares no banco. Posso tirar o dinheiro amanhã, quando o banco abrir, e então a gente vai e pega o carro dele. Fora de brincadeira. Vamos ficar numa daquelas casinhas de campo e tudo, até acabar o dinheiro. Aí então, quando terminar a gaita, posso arranjar um emprego e nós vamos viver num lugar qualquer, com um riacho, e depois a gente pode se casar e tudo. Eu mesmo ia rachar a lenha no inverno. Palavra de honra, ia ser bom mesmo! Quê que você acha? Vambora. Que tal? Você vem comigo! Por favor!
— A gente não pode fazer uma coisa dessas — ela disse. Parecia danada da vida.
— Por quê não? Por quê que não pode?
— Pára de gritar comigo, por favor — ela falou, mas era conversa, porque eu nem estava gritando com ela nem nada. — Por quê que não pode? Hem? Por quê?
— Porque não pode, só por isso. Em primeiro lugar, praticamente ainda somos crianças. E você já parou para pensar no quê ia acontecer se você não arranjasse um emprego quando o dinheiro acabasse? Íamos morrer de fome. Esse negócio todo é tão maluco, que nem é…
— Não vejo nada de maluco. Eu arranjava um emprego, não se preocupe com isso. Não precisa se preocupar com isso. Quê que há? Não quer ir comigo? Se não quiser, diz logo.
— Não é isso. Não é isso, absolutamente.
De certa maneira, eu já estava começando a ficar com raiva dela.
— Nós vamos ter um mundo de tempo para fazer essas coisas, todas essas coisas. Quer dizer, depois que você acabar a universidade e tudo, e se a gente se casar. Vai ter um mundo de lugares maravilhosos para a gente ir. Você está…
— Não, não vai ter mundo nenhum de lugares maravilhosos para a gente ir. Ia ser completamente diferente. — falei. Estava começando novamente a ficar deprimido como o diabo.
— O quê? — Ela perguntou. — Não estou ouvindo direito. Uma hora você grita, na outra você…
— Eu disse que não, que não vai ter lugar maravilhoso nenhum para se ir, depois que eu terminar a universidade e tudo. Vê se escuta direito. Ia ser completamente diferente. Teríamos que descer de elevador, com as malas e a tralha toda. Íamos ter que telefonar para todo mundo, dizendo “até à volta”, e mandar cartões postais dos hotéis e tudo. E eu estaria trabalhando em algum escritório, ganhando um dinheirão, e indo para o trabalho de táxi ou nos ônibus da Avenida Madison, e lendo jornais, e jogando bridge o tempo todo, e indo ao cinema, e vendo uma porção de documentários idiotas e traillers e jornais. Jornais cinematográficos. Puxa vida. Tem sempre uma corrida de cavalos imcebil, e uma dona quebrando uma garrafa no casco de um navio, e um chipanzé andando numa droga duma bicicleta, vestido de calças. Não ia ser a mesma coisa nem um pouquinho. Você não entendeu nada do que eu falei."
Tags: Holden lindo -
Quanto mais pensava no troço, mais excitado ficava, e cheguei a me esticar e pegar a droga da mão de Sally. Que idiota que eu era.
— Fora de brincadeira — continuei. — Tenho uns 180 dólares no banco. Posso tirar o dinheiro amanhã, quando o banco abrir, e então a gente vai e pega o carro dele. Fora de brincadeira. Vamos ficar numa daquelas casinhas de campo e tudo, até acabar o dinheiro. Aí então, quando terminar a gaita, posso arranjar um emprego e nós vamos viver num lugar qualquer, com um riacho, e depois a gente pode se casar e tudo. Eu mesmo ia rachar a lenha no inverno. Palavra de honra, ia ser bom mesmo! Quê que você acha? Vambora. Que tal? Você vem comigo! Por favor!
— A gente não pode fazer uma coisa dessas — ela disse. Parecia danada da vida.
— Por quê não? Por quê que não pode?
— Pára de gritar comigo, por favor — ela falou, mas era conversa, porque eu nem estava gritando com ela nem nada. — Por quê que não pode? Hem? Por quê?
— Porque não pode, só por isso. Em primeiro lugar, praticamente ainda somos crianças. E você já parou para pensar no quê ia acontecer se você não arranjasse um emprego quando o dinheiro acabasse? Íamos morrer de fome. Esse negócio todo é tão maluco, que nem é…
— Não vejo nada de maluco. Eu arranjava um emprego, não se preocupe com isso. Não precisa se preocupar com isso. Quê que há? Não quer ir comigo? Se não quiser, diz logo.
— Não é isso. Não é isso, absolutamente.
De certa maneira, eu já estava começando a ficar com raiva dela.
— Nós vamos ter um mundo de tempo para fazer essas coisas, todas essas coisas. Quer dizer, depois que você acabar a universidade e tudo, e se a gente se casar. Vai ter um mundo de lugares maravilhosos para a gente ir. Você está…
— Não, não vai ter mundo nenhum de lugares maravilhosos para a gente ir. Ia ser completamente diferente. — falei. Estava começando novamente a ficar deprimido como o diabo.
— O quê? — Ela perguntou. — Não estou ouvindo direito. Uma hora você grita, na outra você…
— Eu disse que não, que não vai ter lugar maravilhoso nenhum para se ir, depois que eu terminar a universidade e tudo. Vê se escuta direito. Ia ser completamente diferente. Teríamos que descer de elevador, com as malas e a tralha toda. Íamos ter que telefonar para todo mundo, dizendo “até à volta”, e mandar cartões postais dos hotéis e tudo. E eu estaria trabalhando em algum escritório, ganhando um dinheirão, e indo para o trabalho de táxi ou nos ônibus da Avenida Madison, e lendo jornais, e jogando bridge o tempo todo, e indo ao cinema, e vendo uma porção de documentários idiotas e traillers e jornais. Jornais cinematográficos. Puxa vida. Tem sempre uma corrida de cavalos imcebil, e uma dona quebrando uma garrafa no casco de um navio, e um chipanzé andando numa droga duma bicicleta, vestido de calças. Não ia ser a mesma coisa nem um pouquinho. Você não entendeu nada do que eu falei."
— O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger
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