Eu a fazia feliz só de pirraça e quando via, ela me fazia feliz sem esforço algum. Ela pegava meu pulso no meio da noite e sempre me assustava com esse jeito violento de me dar carinho. Eu me aproximava para beijar sua nuca e ela sempre se levantava para pegar água. Ela me pedia pra ir embora e eu sempre ia. Ia embora querendo morrer, querendo me matar, querendo matá-la também, mas sabendo que ela me chamaria. Porque ela sempre chamava e eu sempre voltava. Éramos opostos que não se atraiam, mas estávamos dispostos a contrariar a todos. Contrariávamos as leis da realidade, contrariávamos a nós mesmos e éramos dois fugitivos que se amavam acima de tudo. Vivíamos pelo impulso, pela urgência.
Vivíamos como se estivéssemos com as armas apontadas contra nossas cabeças. Contando sempre os minutos para o fim chegar.
"— Paula S. em “Clichê Urbano”
Todos os dias, uma folha branca terminava repleta de rabiscos inacessíveis a outras mãos que não fossem as minhas. Foram cento e quatorze folhas inundadas de sentimentos que eu não compreendia, cento e quatorze folhas de palavras que saíam sozinhas depois que eu lambia meus próprios lábios lutando contra esse impulso que vinha de dentro pra fora e de fora pra dentro. Era uma guerra diária. Eu lutava comigo mesma e sempre perdia. A minha parte vencedora, ria de mim enquanto estrangulava meu pescoço e me sussurrava as palavras que deviam ser despejadas no papel. Eu escrevia obediente e nem pensava em controlar minhas mãos que adquiriam vida própria.
Não havia começado com “Era uma vez…” e muito menos com qualquer outra tentativa de tornar a história brilhante. A voz que resmungava rouca no meu ouvido me insistia para por toda a realidade podre do mundo nas folhas e eu obedecia. Os amores ali expostos nada tinham de bonitos e eram regados por álcool em todas as quintas, queimados por cigarros em todos os dias e aquecidos por um café amargo demais. Quem lesse sentiria arrepios de agonia e não compreenderia palavra alguma. Nem eu compreendia. Eu só seguia o impulso. O impulso me pedia mais ardência nas paixões, mais brigas nos romances e eu obedecia. Chegava a dar dó das personagens.
Eu sempre acordava com uma ressaca terrível depois de virar a noite escrevendo. Ressaca alguma se compara com a ressaca de estar matando aos poucos o que de belo havia em mim. Ressaca alguma é pior do que a ressaca do excesso de palavras usadas. Palavras que poderiam ter sido jogadas debaixo do travesseiro, mas que insistiam em serem desperdiçadas jogadas nos papéis. Eu me contorcia tentando fugir da voz e não adiantava porque ela vencia todos os dias. Eu não sentia prazer algum sentindo tanta pena das minhas personagens, mas eu não podia salvá-las. Não podia pedir que elas fugissem enquanto houvesse tempo porque não havia tempo algum. Eu as controlava e a voz me controlava. O ciclo era infinito e eu não sabia o que fazer.
No dia em que eu iniciaria a folha cento e quinze que tudo mudou. Eu despertei e entendi o sentido de toda aquela guerra. Estava preparando meu café ouvindo a voz me cuspindo as próximas palavras e sorri. Sorri porque eu havia entendido tudo. A guerra travada comigo mesma tinha a ver com o medo de me encarar e de aceitar meus sentimentos. Pela primeira vez em cento e quinze dias, eu venci a mim mesma. Sem a ajuda de ninguém. Não precisei me apoiar em nenhuma certeza incerta. Não precisei recorrer a amores ou amantes. Eu fui salva por quem poderia me salvar e me destruir: eu mesma. Lambi meus lábios como da primeira vez e escrevi em letras grandes na página cento e quinze: FIM. Eu e as personagens estávamos livre. Mesmo com a história inacabada.
"— Paula S. em “A história inacabada”
— Paula S. em “A Lua virou Sol e eu ainda não preguei os olhos.”



